terça-feira, 27 de setembro de 2016

PEDRO VIVA PEDRO

Por João José Alencar


Em um sábado qualquer. Pedro decidiu dar um basta em tudo que lhe fazia mal. As cortinas manchadas na sala. O que sobrava da coleção de latinhas de bebidas, conservadas desde primórdios de sua adolescência na década de 1990. As canecas com hastes quebradas, mantidas como recordação de amigos. E mais dezenas de papéis, oriundos de rabiscos de histórias em quadrinhos a panfletos recolhidos durante o trânsito. Todos devidamente embalados em sacolas de shopping e em caixas de papelão provenientes de compras no atacado. Levou para o porteiro de seu prédio com o pedido de encaminhar a uma cooperativa de reciclagem.

Voltou. Com menos entulhos em seu apê apertado, era hora de seguir para o próximo passo. Faxina geral. Lavou as portas e as janelas. Todas as panelas foram vistoriadas, para que não se passasse uma marca de pretidão. Cheiro de lavanda no ar. Lençóis e fronhas trocados. Brilho na cerâmica. Aquela sensação de paz, existente em uma casa limpa. Estava então Pedro quase preparado. Faltava o banho. A roupa passada. Os acessórios devidamente combinados. Em menos de quarenta minutos, seu corpo estava vestido. Sua pele devidamente perfumada. O cabelo perfeitamente penteado.

Em seu carro. Passeou por várias ruas. Apreciou as luzes da cidade. Vez ou outra olhava no espelho, para ver se o visual estava de acordo com suas pretensões. O som do carro tocava de Beatles a Michael Jackson, em rádio qualificada. Seu itinerário foi se desenhando em mapas, situados apenas em sua mente. O bar escolhido primeiro no “mamãe mandou”. Em uma rápida pesquisa na Internet, a opção definitiva definiu seu caminho. 

No bar. Pediu um chopp acompanhado de iscas de peixe. De sua mesa avistou quatro amigas sentadas logo à frente. Delas, uma de cabelos cacheados, para seus olhos melhor se destacou. Acenou com um sorriso de canto. Sentiu reciprocidade. Tomou a iniciativa em se convidar para a roda. Suas investidas foram bem recebidas. Nesse processo usou de todo seu repertório de piadas. Contou histórias de características aprendidas em pescaria, mas com um charme que parecia não deixar dúvidas. Descobriu o nome da moça de cachos, Mariana. Conquistando o apoio das suas novas amigas, por fim ficaram sozinhos.

Bebendo. Entre uma caneca e outra de chopp surgiram beijos. De lá a aventura ganhou passos. Pedro sabia como terminaria aquela história. Sem se conhecerem. Sem promessas. Sem perguntas. Tiveram uma noite ardente. A cama não foi suficiente para o desejo em êxtase. O cheiro de limpeza em contraste com o cheiro do atrito entre corpos. A madrugada para esse dois se tornou pequena. 

Romântico. Pedro preparou o café. Fez panquecas. Não se esqueceu do suco de laranja. Levou  a surpresa para sua princesa. Acordou-a com um beijo no rosto e uma playlist chamada “Flashback”. Conversaram. Fizeram perguntas um ao outro. Conheceram-se um pouco. Houve promessa de um novo encontro. Mariana foi embora, tinha compromissos agendados. Na despedida agradeceu a noite. Deixou o seu número de telefone em um guardanapo, anotado com batom vermelho. Deu um beijo de despedida. Em um último ato sussurrou “me liga”.

Sorridente. Pedro recolheu, dentre camisinhas e bagaços, o lixo. Limpou a casa. Tomou banho. Ligou o computador para finalizar umas planilhas. Do celular resumiu para os amigos a noitada, sem maiores detalhes, compartilhava sua alegria. Quando viu já era noite. Da janela do 5º andar percebeu que era lua cheia. Contemplou por alguns instantes o silêncio. Deitou na cama arrumada. Olhando para o despertador notou que ainda se sentia mal. 

O fato. Pedro deixou para as coisas e para os momentos, respectivamente, a culpa da sua infelicidade e a cura para o vazio. Não tinha se dado conta, que o que precisava não era de um roteiro. Não sabia o que necessitava. Então tomou uma decisão. Amanhã, tudo será diferente. Daquela segunda cinzenta, teria além de mais um dia de trabalho, uma adorável companhia. Era hora de adotar um cachorro. 

No fim. O pedido proferido por Mariana foi lembrado. Aquele sorriso fixou em sua mente. Final de semana terá de novo sua companhia. Dessa vez, quando a bela partir, permanecerá contente. Levará Timóteo para um passeio no parque. Pedro não descobriu o segredo da felicidade. Mas ele é brasileiro. Se não conseguir ser feliz, ao menos tentou.

domingo, 25 de setembro de 2016

QUANTAS LEMBRANÇAS VOCÊ ME PROPICIA

Por João José Alencar



Tenho saudades das nossas conversas em que a lua era a única testemunha, em que passávamos minutos em silêncio, apenas com nossos olhos se contemplando. Eu, minuciosamente observava cada traço do seu rosto, para decorá-los no sentido mais pertinente da palavra, guardar os detalhes que lhe fazem tão bela, bem próximos do meu coração.

Tenho saudades daquele jeito de menina má, que acendia o pecado e me fazia suar frio, dominando meus pensamentos como pólvoras a causar estragos. Ainda sinto seu cheiro quando minha mente recorre ao passado em busca de momentos felizes, não há perfume melhor do que quando meu olfato percorria sua pele.

Sinto o gosto dos seus beijos ao provar uma taça com vinhos amadurecidos, os tons de desejo e luxúria, a cor avermelhada, o aroma de nostalgia, reunidos me remetem uma dose de paixão, ao apreciar cada gole, mesmo que não saiba, é minha boca encontrando a sua. Desses lábios lembro com carinho de certos “eu te amo” em pronúncias tímidas, ora por palavras sussurradas ao pé do ouvido, ora em melodias que compõe a nossa trilha sonora.

Recordo-me de cada momento da gestação de nosso amor. As primeiras palavras trocadas virtualmente, em que a cada nova mensagem recebida, vibrava com sorrisos em volume alto. Dos desencontros e primeiro encontro como presságios de um possível desastre, mas com algum capricho do destino ainda nos dizendo “persistam”.  Da chuva que insistia a cair naquela noite, em que nosso abrigo era um pequeno céu de pedra e que finalmente a timidez se silenciou em um primeiro beijo.

Foram poucas as brigas, incrivelmente até nelas as palavras souberam se postar de maneira gentil. O tempo foi meu pior rival, nem sempre as peças se encaixam no momento certo, assim se fazem necessárias pausas. E se o cupido de fato tiver nos acertado, quem sabe aquele passado distante ganhe uma nova continuidade, talvez em um presente próximo. 

Se nossa história não tiver novas temporadas, que nos reste às lembranças. A parte de mim que já foi sua e a parte de ti que já foi minha tatuaram em nossos corações alegrias, que nem o tempo, por mais tinhoso que seja, será capaz de remover. Onde há amor, não há solidão que se achegue, porque a semente que plantaste em meu coração precisa apenas ser regada novamente, para que nasça árvore de raiz fecunda. Aguardemos. Esperemos. A resposta virá quando não restar mais dúvidas.

terça-feira, 22 de março de 2016

SAIA DESSE CORPO TRISTEZA, ELE NÃO TE PERTENCE

Por João José Alencar

Fonte da imagem: Fanpage Anonymous ART of  Revolution
Se me perguntarem da onde é que sai tanta inspiração? Tantas referências que não consigo entender, mas sei que estão explícitas em suas metáforas? Só existe uma resposta capaz de sintetizar esse meu momento, estou trocando de pele, saindo das ilusões que nutri, em processo de desintoxicação de sentimentos que nunca irei viver, pelo menos não com quem idealizei em minha mente.

Sou um apaixonado compulsivo, amaldiçoo os contos de fadas da Disney e toda mentira de amor que impregnou em meu cérebro, aos poucos remendo os fios soltos do meu coração, transformo o abstrato de tais estragos em obra de arte, enquanto estiver respirando, não permitirei que a tristeza consuma minha alma, não nasci para ser devorado por lágrimas, só aceito cair se for com um sorriso no rosto.

Meu remédio é buscar forças em todos os aspectos da minha história. Peço reforço da criança destemida que não colocava limite nos sonhos e vestia-se de esperança toda vez que ameaçava vim trovoadas, porque com elas também vinha chuva e debaixo de seus pingos me sentia um gigante. Vou no adolescente rebelde, aquele que buscava consciente de suas fraquezas negociar suas vitórias, que deixava o plano do ideal para transformar em real suas loucuras e que colhia do fracasso promessas, no qual lhe  dava a garantia de que não foram esgotadas todas as suas chances. Olho por futuro e me abasteço com sabedoria de um velho que não se cansou de insistir com a vida, que busca em suas limitações iluminar aqueles que pela falta ou pouco de experiência precisam de guias. Resguardo no meu presente a certeza que não vale a pena perder com síndromes o melhor que de minha coragem posso construir.

Deixo o luto e a tristeza afogados em taças de vinhos, respiro fundo e reconfiguro esses signos, o luto quero só se for em verbo, conjugando-o por aquilo que acredito, demonstrando meu respeito a vida, tão frágil e tão magnífica. Portanto, dou um basta, exorcizo com orações toda dor que se manifesta, conclamo a beleza de cada gesto de amor ao próximo para impedir que tempestades destrua minhas virtudes, mantendo intacto a suavidade de minha alma.

Algumas vezes me culpei pelo eu que não existe, aquele presente em outros e que parece ser mais felizes, nessa hora faço meu diploma valer a pena, não posso deixar que o encanto do outro negue a delícia de ser eu mesmo, seja com meus defeitos, que chamo de particularidades, seja com minhas qualidades, que modéstia a parte são preciosas.

É preciso entender que ser único não é ter um produto que traz esse rótulo, é mais que cópias do que se admira na vitrine, não são simulacros do que se projeta como felicidade. É aceitar-se com tudo que lhe compõe, entender as cicatrizes que foram provocadas, os calos que nos lhe dão condição de guerreiros e respeitar o calor das paixões e o frio das desilusões que ainda estão por vir. Também não devemos esquecer que capítulos de nossa história não determinam o nosso conteúdo, o que nos faz únicos é aceitarmos nossas verdades e mentiras, olhar no espelho e reconhecer nosso reflexo, seja do corpo, seja da alma.

quarta-feira, 9 de março de 2016

PROMESSAS QUE POSSO CUMPRIR

Por João José Alencar

Fonte da imagem: Fanpage Anonymous ART of  Revolution

Sonho em pular de paraquedas, quero sentir como é ter a liberdade de um pássaro e com segurança pousar de volta para minha realidade. Quero me entregar ao perigo de meus pés já não estarem mais em terra firme, ser anjo por um momento, conspirar contra o vento e após alguns minutos guardar para sempre em minhas lembranças esse atrevimento.

Com uma mochila nas contas, trocados resultantes de anos juntados em meu cofrinho, coragem para doar e vender e um dane-se para qualquer medo que vier, é que pretendo viajar por destinos incertos, me aventurar em terras desconhecidas, usar o passaporte ainda inexistente, ter histórias para quando a velhice me cobrar ter tido uma vida.

Em minha pele irei deixar agulhas minúsculas com sua tinta cicatrizante tatuar a eternidade de minha carne. Poderá ser um animal que se esconde em minha personalidade, uma frase escondida em língua que só a curiosidade permitirá desvendar, um objeto que transcende seu significado material e representa algo resultante de meus pés calejados no qual somente a mim é reservado o significado. Seja qual for a forma, as cores e o lugar escolhido, sei que do meu corpo sou dono e que a ele em homenagem deixarei um enfeite, agradecimento por sustentar as inconsequências de minha alma.

Escrever um livro, mesmo que seja para empoeirar em estantes. Permitir que minha imaginação possa colocar em letras aquilo que em sonhos não mais se contenta ficar em silêncio. Deixar personagens arbitrários, estereótipos e contraditórios se enrolarem em tramas que reflitam pedaços do passado com visões turvas de futuro e que se misturam com certezas presentes apenas em mundos paralelos, onde estarão bem abrigadas e porque não deliciosamente embriagadas.

Andar a cavalo e como em um faroeste de formigas, mostrar o forasteiro que se esconde no porão de meu cérebro. Despir-me junto a natureza, seja nu em um banho de mar ou sem rótulos em cima de um barco. De menino a homem, devo me reinventar, conhecer cartões postais e deles produzir meus próprios papéis de parede. Sentir mais cheiros e deles buscar respostas. Abraçar árvores em lugares que a natureza se faz mais íntima, sem pudor em demonstrar todo meu afeto ao que há de mais belo.

Cantar com/e desconhecidos sem me importar com olhares de julgamento. Ajudar quem com a mão estendida precisa tanto de moeda quanto de sorrisos. Deixar transcender meus exageros, com juras de que não haverá arrependimentos. Rezar sem medo da fé que carrego, mas também sem vergonha dos pecados que venha a cometer. Permitir períodos sabáticos de coisas imprescindíveis, em sinal de respeito a própria vida, que constantemente reinventa seu conceito de impossível. A ti, amado eu, prometo.

segunda-feira, 7 de março de 2016

POR HOJE SÓ QUERO DEIXAR DE TE AMAR

Por João José Alencar


Fonte da imagem: Fanpage Anonymous ART of  Revolution

Em teus braços quero deixar de ser nômade, fazer porto seguro e só deixá-los quando a eternidade não quiser mais o ar que respiro. Você é a promessa de amor que algum dia o coração bêbado pela vontade de amar tatuou na minha corrente sanguínea e impregnou esse sentimento em cada centímetro de meu corpo.

Finjo que já não sinto mais nada, uma forma de adormecer a dor de saber que é em outra boca que encontras o amor. Penso que se o cupido aparecesse, sobre ele avançaria com as flechas que cravou em meu peito, o transformaria em espeto, só pra sentir como as lágrimas de seu desprezo queima minha leva de felicidade.

Não te ter, mais do que castigo é sinônimo de vazio, de um vácuo que minha alma não consegue preencher, dormir transforma-se no melhor momento do dia, pois nesse instante é que estamos juntos, mesmo sendo em devaneios da imaginação, ainda sim esta ilusão é o remédio para apaziguar os latejo que sua ausência provoca.

Poderia recorrer a feitiços, criar jogos como as tramas maniqueístas das novelas, mas me recuso a ser desleal, senão posso conquistá-la com as minhas qualidades ou não consigo lhe despertar a luxúria de consumir carnalmente toda a paixão que de minha parte é pólvora pura, então que me reste os choros, que me sobre a culpa.

Sento-me a beira de casa, contemplo a lua e as estrelas, enquanto seco mais uma garrafa de vinho, as lágrimas de meus olhos já não brotam mais, aos poucos minhas esperanças em um sentimento puro se abstêm, oro ao destino que essa dor um dia cesse, nunca pensei que o amor tão bonito na ideia abstrata se concretizasse em uma dor sem fim.

domingo, 24 de janeiro de 2016

SERÁ QUE VALE A PENA ACREDITAR NO AMOR?

Por João José Alencar





Se me perguntares qual é o ser mais ingênuo da face da terra? A resposta óbvia será o apaixonado. Esse que consegue nutrir esperanças mesmo quando o coração de quem deseja não é propicio a atender suas perspectivas. Pobre em suas possibilidades de concretizar o que idealiza. Rico em imaginação, para manter vivo e de forma linda as ilusões, que o permite sonhar com os olhos abertos.

Apaixonar-se é algo simples e ao mesmo tempo complexo, pois surge sem que nos demos conta das raízes que estão brotando e vai ganhando força, de forma a eliminar os anticorpos para retraí-lo. Motor para os finais tristes que emocionam plateias do mundo inteiro e combustível para um mercado que não se esgota de juras para todo o sempre.

O amor é um sentimento lindo, do qual não devemos ter medo de assumi-lo, mas que também machuca, nem sempre convêm ser aparente e refugiá-lo no peito dói, em sua companhia florescem outros estados de espírito. Talvez seja a melhor desculpa para afogar a dignidade que ainda nos resta em longas noites estendidas no álcool, esquecendo o bom juízo de absorver a dor sintomática em silêncio para expô-la em vexames libertadores. Chorando em ombros de amigos ou de pessoas desconhecidas, o que vale é gritar todo o desespero inconsciente de uma história mal resolvida.

Amar tornar-se um roda gigante de sensações, seja por carregar a força desse sentimento sozinho, como um segredo a ser repetido em tom baixo apenas para as paredes do quarto ou vivenciá-lo a dois, em qualquer parte que seja permitido uma demonstração de carinho, como uma contemplação a todas as promessas das páginas de um romance ou de um beijo de cinema. 

O amor também tem como marca um constante estar em conflito, desperta dúvidas independente da forma que é experimentado: Será que um dia chegará o momento de desfrutar o desejo reprimido? Será que ainda teremos verões para juntos de todo afeto compartilhar?

Eis que o grande perigo de se apaixonar é tornar-se vulnerável, deixar brechas para mágoas que afetarão todas as nossas formas de viver, por mais que a receita indique que o tempo cicatrizará as feridas, temos a realidade a contestar com lágrimas, que quando param de cair, faz o filtro que nos permitia enxergar em tudo arco-ires deturpar-se em neblinas.

Precisamos ser fortes, acreditar nas promessas de que em breve será nos concedido a felicidade completa. Quem sabe o papo de que algo bom nos está reservado tem seu fundo de verdade, pelo menos devemos ir à busca de fabricá-la, afinal viver só vale à pena quando a gente se joga, contanto que esse jogar não seja entendido como o mover de cartas, mas de cair ou pular para o que está a espera no fundo dos abismos da alma.

Amar, apaixonar-se, sofrer e acreditar no amanhã, talvez dessa conjugação nasça grandes lembranças. Lembre-se que se você é capaz de sentir é porque está vivo e por mais que as expectativas nunca sejam como imaginadas, a beleza impregnada no campo das ideias que somente o amor proporciona vale muito à pena.

É preciso acreditar nos inúmeros depoimentos que a história humana já propiciou, tendo desconfiança ou com uma crença indestrutível, tenhamos fé. A vida é bandida, só que alguns momentos conseguem compensar toda a provação que em outros nos dispôs. O amor é um risco do qual devemos apostar, seja em linhas tortas ou em retas perfeitas, só saberemos as consequências se optarmos em seus limites adentrar.