quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

SOU UMA HISTÓRIA EM CONSTANTE CONSTRUÇÃO

Por João José Alencar



Gosto de ser protagonista dos meus atos. Ser o herói da cena sem precisar de super poderes. A sutileza é o segredo. Talvez apenas deixe o sentimento falar, a palavra certa pronunciar, o silêncio no lugar certo se colocar.

Quando sou coadjuvante aciono os ouvidos, um ombro amigo é remédio para alma. A vida é composta por tantos enredos, desfocar para que os outros se encontrem é cura para egos inflamados.

Vilão é um papel que recuso, mas já pensou que para o vilão o mocinho que é mau sujeito. Seja em qualquer situação a balança sempre pesa para um lado, sigo apenas o julgamento de minha consciência, pois conheço bem seus critérios. Peço desculpas a quem me dá uma máscara rústica, em meu rosto estão apenas óculos.

Seja o papel que for. Atribuído por mim, ditado pelos outros. Complexo aos olhares atentos, caricato para quem ver o mundo por modelos. Será sempre maior do que de um livro, porque o enredo está ainda incompleto. Quem o escreve é a vida, e de tão arteira, com certeza prepara grandes surpresas.Que venham coisas boas, de notícias ruins já estão bem abastecidas as mídias.


A METÁFORA DO FRUTO

Por João José Alencar



Era verde nos sentimentos. Chorava por birra, queria todos seus caprichos contemplados, seja a mesada em periodicidade semanal ou os beijos que sustentou em sua imaginação.

Era verde em decisões. Em um momento saudava todos, sem distinções. Em outro refugiava seu olhar para o chão, escondia sua imagem debaixo de um chapéu, queria ser invisível, um misto de timidez crônica com fobia de seus semelhantes.

Era verde em desejos. Ficava horas admirando catálogos, decidindo-se entre múltiplas possibilidades, para no fim deixar a escolha para os outros. Sonhava de olhos abertos diariamente, mas preferia viver em anestesia. Contemplando o nada, os dias apenas passavam.

Era verde em sabedoria. Das opiniões mais fortes, os outros extraiam apenas os gritos. Dos livros empoeirados na estante, brotava a felicidade de colecionador, admirava e queria conservar a beleza das capas, nunca ousou desbravá-los.

Eis que um dia do nada resolver amadurecer. Domou seus sentimentos. Verbalizou decisões. Saiu do marasmo, sua pele aflorou os mais profundos desejos. Fez se sábio ao ler algumas poesias, ao menos se dispôs em, um ato de coragem, interpretar o mundo.

Durou dias até que sentiu saudades da velha rotina, já estava cansado de tantas descobertas. Pensar exigia esforço, a única coisa que queria era o conforto da cama. Que pena! Verde nunca mais seria, ao se render as delícias da preguiça, do vazio sem culpas, pagou um preço elevado. Apodreceu.