sábado, 17 de outubro de 2015

É PRECISO APRENDER A VIVER HISTÓRIAS CURTAS

Por João José Alencar




Esse é um dos poucos textos que o título nasce antes dos versos, parte de uma angústia interna, de alguém que sempre apreciou promessas de futuro, mas que está de saco cheio de frustrações. De alguém que aos poucos perde o medo de ideias infortunas e se acostuma com certas coisas, como cama com um corpo só, conchinhas com o travesseiro, garrafas de vinhos ao som de playlists de músicas românticas nas noites de sábado.

Talvez rompimentos com utopias latentes com meu protótipo de ser não sejam a explicação. Pode ser que esteja aprendendo a viver com a realidade de uma forma menos fantasiosa e curtindo as cores frias, mesmo em dias que o sol não acaba ao iniciar da noite. Também pode ser o tal do amadurecimento, que filósofos de plantão dizem que no homem chega mais tarde. Ou quem sabe um desapontamento com as escolhas do coração, é o cérebro pedindo impeachment, para assumir as rédeas e no fim deixar como está a parte que pede por companhia, continuando sozinha, dessa vez na desculpa que foi por escolha própria.

Acredito que é hora de aventurar em histórias curtas, onde possa curtir momentos inesquecíveis em uma noite, e no início da manhã guardá-las em registros na mente, tendo consciência que não se repetirão, sem sofrer pela falta de continuidade e em contento pela oportunidade. É hora de mentir o nome, fazer joguinhos com os olhos, treinar o sorriso, ser lobo em pele de cordeiro, inventar fatos e personagens como máscaras sob medida, travestindo-me delas. Mas como se faz isso? Como viver o hoje sem querer o amanhã? Na escola da vida estive ausente na aula que justifica as diferenças e ensina como conviver com elas, explicando porque a dramaturgia é bela, enquanto a vida não dá tréguas, é mutante.

Acho que para a metáfora de histórias curtas, vou fazer minhas adaptações. Em vez de virar um colecionador de amores, vou apenas tirar o peso das expectativas que minha imaginação sempre adiciona. É o momento de saber que um dia bem aproveitado pode valer mais que uma década de insatisfações. Quem sabe meus curtas-metragens venham a agradar, virando longa-metragem, trilogia ou até um Chatô com anos para ser finalizado ou um Simpsons em versão felizes para sempre. Para que assim amores de capítulos incertos eu possa vivenciar, sem saber que hora vai acabar e ciente de em algum momento o último beijo será dado.

Independente de qualquer certeza que assuma como verdade, confesso que cometo erros, talvez devesse ser desses loucos que se arriscam sem freios, que se joga no momento sem se importar com o próximo passo. Só que personalidades não se mudam, elas apenas se camuflam quando necessário ou se fazem secretas para permanecerem protegidas. 

Sinto que meu cérebro e meu coração estão em constante pensamento, em uma negociação árdua, sem nunca celebrar um acordo definitivo, tomara que excluam a cláusula em que amores que valem à pena são apenas aqueles carregados de esperanças para a eternidade, para que enfim possa pular de paraquedas na felicidade instantânea, me embriagar em linhas de poucas referências e sem ressacas no dia seguinte.

A metade que espera companhia precisa aprender que não é outra metade que irá satisfazê-la, boas histórias já são suficientes para completá-la. Não devemos esperar o amor para toda a vida, caminhar traz mais avanços, renova o ar até que se chegue ao destino ideal. O movimento há de garantir que a aclamada felicidade não se acanhe e nos surpreenda mesmo quando não fora convidada. 

Que fique entre nós, mas suspeito de que tive a primeira lição: não se fechar para o passageiro significa manter-se aberto ao definitivo, mas em vez de frustrações, permitimos ao futuro as respostas, pois o agora é o que importa.

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