Por João José Alencar
Nesse mundo com tantas ocupações,
onde o tempo voa acelerado, aos gritos truculentos nos cobra por ação, nos
deixando velhos e corcundas. No ritmo da dinâmica de prazos, nunca dentro do
que precisamos, impõe sua austeridade, eliminando possibilidades de rebeldia.
Quando estamos sozinhos sentimos ausência. Quando estamos em grupo ainda não estamos
completos. Essa mania de está ocupado, de não desperdiçar os minutos, quando o
nada significaria pausa, o remédio que um ser inquieto espera para
desacelerar, tendo como efeito o equilíbrio para que a mesmice não lhe
sobrecarregue. A essa cadeia conhecida poeticamente como vida, o cotidiano
intimamente chama de sobrevivência.
Desse contexto pouco atrativo,
marcar horários, escolher dias, selecionar repertório, preparar o local,
organizar as palavras e hierarquizar a ordem dos toques, seriam atitudes
necessárias, bebendo da sede do previsível, para que o desejo seja atendido com
perfeição. Sendo os detalhes minimante preparados, as surpresas cuidadosamente
arquitetadas, as canções devidamente pesquisadas para que cada ato tenha em seu
executar deslumbre. Sem esquecer-se das palavras decoradas, para que tudo saia
como uma peça já escrita e ensaiada, visando o sucesso do público e
desmerecendo a mágica do improviso, que no amor não se vale do está preparado,
mas sim do que se está disposto.
No entanto, me recuso a escolher
datas, a deixar o concreto desiludir o abstrato que meus poros imaginam. Quero te
ter em meus braços, sem ter hora marcada, sem ter o próximo segundo pensado.
Quero conjugar o verbo prazer apenas no presente, libertar de todas as amarras
que impedem nossos planos. Quero me entregar ao segredo de nossos olhares,
deixar para que os nossos hormônios, combinados com as demais facetas de nossas
carnes, dancem ao som de delirantes respiros. Quero acender algumas chamas, e
no fim não quero cinzas, que venha o despertar da fênix, o renascer de novos
sentimentos ainda mais belos.
Portanto, não se preocupe com a
agenda cheia de compromissos, com a falta de estrelas ao deparar apenas com o
vazio do teto, com as frases dispersas ditas para mudar de assunto. Nas
profundezas de minha alma há um desejo que necessita vim à margem, ter em seus
beijos uma esperança para romancear, dá pernas para seguir em terra firme a
quem de barbatanas mora em água doce. Quem sabe assim, minha definição de
sobrevivência desfaleça, para que em um brinde sacramentado em vinho tinto,
possa ir ao encontro da poética e estimulante vida.

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