terça-feira, 28 de abril de 2015

ENTRE NÓS

Por João José Alencar

Foto: Najla Santos


Entre nós existem imensas distâncias, que tem nossos corpos próximos, mas qualquer interação imprecisa, invisível e cega. Talvez se queira romper, assim como uma folha que rasga ao meio, o contrato que nos mantêm longe e firmado antes de ser lido, já que o magnetismo de nossas cascas intenciona nos unir em um abraço quente.

Entre nós existem medos. A coragem em toda sua insistência tenta ultrapassar as grades que a nossa timidez taxou, sem possibilidade de fiança imediata, pois o abstrato não chegou ao consenso de um valor devido, para nos liberar da sentença decretada em meio ao silêncio entre nossas palavras, aquela que insiste em nos separar.

Entre nós existem expectativas que se negam serem testadas. Tão qual como um jogo quase mortal, no entanto, bem mais linguístico, as cartas que problematizam nossa história, traz para ser entendido: porque atrás de paredes nossas falas são tão agregadoras, enquanto frente a frente são enigmas a se decifrar? Será que uma arma paralisante nos acatou e impede qualquer sentimento se expressar?

Entre nós existe desejo. Em cada aspecto do belo, capaz de encontrarmos no outro, ecoa uma íntima vontade da carne conjugar o verbo sentir. O brilho dos olhos, os lábios cheios, o cabelo crespo, o semblante instigador, de cada detalhe do corpo um adjetivo a utilizar e uma vontade que tem fome de desfrutá-lo.

Entre nós existe receio. Construir pontes entre nossos olhares é arriscado, o abismo que separa nosso encontro é delicado, e mais do que cair, talvez haja a insegurança de não voltar ao nosso lugar comum. É difícil pensar que suprimir os dilemas dessa construção, que nos leva um para o outro, possa ser tão difícil, mas ao olhar para o sujeito que cada um construiu de si mesmo, passa a ser entendível.

Entre nós há esperança. Supõe-se que o coração em ritmo acelerado, pelos batuques inevitáveis da emoção, repetidos finitamente nos confins da alma, ainda não esteja preparado para os corres que se dá a razão. Ao tempo, cabem as respostas; ao presente entrego a interrogação, sustentada por uma neblina a compor a realidade e que a imaginação se esbalda em hipóteses levantar.

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